Economia compartilhada: novo comportamento, novos negócios

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Economia compartilhada: novo comportamento, novos negócios

Economia compartilhada: novo comportamento, novos negócios Shutterstock


Práticas de compartilhamento acompanham o ser humano desde o início da sua história. O escambo foi a grande ação econômica da humanidade até que a invenção da moeda começasse a se tornar relevante. Em meados da década de 1990, nos Estados Unidos, no entanto, algo mudou: o eBay era lançado, colocando na internet um mercado de recirculação de bens, dando vida a novos modelos de negócio que desafiam o status tradicional. Assim, nascia a economia compartilhada, como vê a socióloga da Universidade de Boston, Juliet Schor.  


O que há de inovador no comportamento atual com relação aquele datado de séculos atrás é o fato de o desenvolvimento tecnológico possibilitar a relação de trocas de bens – e serviços – entre pessoas desconhecidas, na grande rede de contatos da internet, e não apenas entre indivíduos próximos.


Os especialistas em consumo associam a ascensão de tal conceito à evolução do pensamento contemporâneo com relação a preocupações econômicas, sociais e sustentáveis. Ou seja, o consumidor de hoje quer comodidade e facilidade para chegar aos produtos e serviços que precisa, se preocupa com a influência da atividade industrial no meio ambiente, além de ter acesso a todo tipo de informação, em uma quantidade nunca vista antes, desenvolvendo um nível crítico que não era esperado pelas empresas anteriormente – esse é o tal empoderamento do consumidor.   


Na economia compartilhada, o “ter” perde lugar para o “estar”, o consumo por si só não faz sentido. Em vez de vender, as startups do nicho incentivam o compartilhamento ou o aluguel de produtos e serviços


Outro comportamento...
Para Daniela Dantas, head of advisory LATAM da WGSN Mindset, mesmo que o “ter” ainda seja sinônimo de status, existe um movimento de mudança que coloca o “estar” em seu lugar. “O número de experiências que você coleciona valerá mais do que quantos ativos você tem”, aponta a especialista. Este é um gap crucial no relacionamento das marcas com seus clientes – é preciso entender os novos paradigmas para garantir a saúde da relação.


“Estamos vivendo um ponto de inflexão muito importante no que significa consumo”, diz. Dantas entende que as marcas não deixarão de manter a sua importância, mas terão que se reinventar com foco na conveniência e no valor entregue durante a experiência.


Nessa linha de pensamento, Peter Kronstrøm, head do CIFS LATAM, acredita que estamos mudando o modo como vemos um bem, que antes era único, impossível de dividir, e agora é compartilhado por outras pessoas. “O carro vai ser um instrumento de serviço compartilhado, como no Uber. E, no futuro, a relação vai ser muito mais de um serviço do que de um carro em si”, explica. 

 
...outra atuação
Um novo consumidor exige uma nova postura das empresas – ou, ao menos, algumas práticas que levem em consideração esse novo perfil de comportamento. Não dá para, por exemplo, lutar contra a corrente e tentar barrar a inovação, como o movimento dos táxis contra o Uber (uma polêmica quase cíclica). É preciso abraçar as novas causas, adaptando-as para o modelo de negócio específico da empresa de uma forma que faça sentido.


“Se formos olhar para fora do Brasil, as montadoras já estão se adequando a esse modelo. BMW, Volkswagen, GM, todas iniciaram projetos próprios ou fizeram parcerias com empresas de compartilhamento de carros. Porém, é importante dizer que esse movimento ainda serve mais como posicionamento do que como fonte de receita relevante. De qualquer maneira é um modelo que veio para ficar”, aponta Dantas.


No ‘Drive Now’, da BMW, por exemplo, a empresa realmente levou a sério a inovação: além de ser controlado totalmente por smartphone para reserva e desbloqueio do automóvel, o usuário pode devolvê-lo em qualquer região que faça parte da “área” do ponto de partida do carro. A Citroën também quis apostar num diferencial: o serviço compartilha apenas carros elétricos, levando a sustentabilidade como bandeira principal da inovação.


Modelos culturais
Mudança é mesmo o objetivo dos modelos de economia compartilhada – sem rodeios. A intenção do Uber, por exemplo, é fazer com o que o aplicativo seja tão eficiente que, para a maioria das pessoas, seja mais barato utilizar o serviço do que ter um carro. “A ideia é estimular o acesso em detrimento da posse; ou seja, o usuário não precisa mais ter seu carro particular, mas ainda assim consegue se movimentar pelas cidades com conforto e comodidade”, explica Fabio Sabba, Diretor de Comunicação da empresa no Brasil.


Para os idealizadores do Shippify, aplicativo brasileiro de entregas colaborativas, a inspiração veio dos problemas enfrentados com a logística brasileira. Assim, a intenção do app é entregar a melhor experiência possível mesmo na entrega – e não apenas na aquisição do produto. “Mesmo sem nenhum carro conseguimos ter uma frota que atende diversas partes no Brasil, com mais de sete mil entregadores. A economia colaborativa é isso, as pessoas se unindo para proporcionar um serviço de melhor qualidade, benéfico ao consumidor”, aponta Lucas Grossi, diretor de Customer Experience da startup. Em um ano de operação, a empresa nacional já está também no Chile e no Equador – e objetiva alcançar novos mercados em breve, para levar seu DNA mundo afora.


Já o Bicos, market place de serviços domésticos, foi inspirado na plataforma norte-americana TaskRabbit, mas procurou adequar seu foco em características brasileiras. Conscientes da função econômica dos modelos colaborativos – muitos se tornam ferramentas para complemento de renda e até mesmo chegam a uma forma de renda fixa -, os fundadores mantém uma área de sua página abordando a questão da formalização, tão importante no mercado nacional. “De qualquer forma, nosso objetivo é acompanhar a mudança de comportamento do consumidor, oferecer agilidade e o maior número de informações para que o contratante resolva seu problema o mais rápido possível”, conta Kleber Costa, sócio e cofundador.   


O que as empresas precisam tirar de tudo isso? Que é preciso entender, profundamente, o consumidor. As principais correntes da economia compartilhada, na visão de Daniela Dantas, da WGSN, é o empoderamento do indivíduo e a questão do “be real” – um movimento no qual as pessoas buscam o que realmente é verdade. “Não adianta se apoderar de movimento ou causa sem saber o que está acontecendo, entrar na onda da economia compartilhada se não souber o porquê está entrando, sem dar o suporte necessário para quem está compartilhando ou usufruindo. As marcas precisam entrar de cabeça e consumir informação do mesmo jeito que o seu consumidor está fazendo”, finaliza.

 

*A matéria foi originalmente publicada na revista Consumidor Moderno 213

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